sm Boris Pasternak, poema  
É INDECOROSO SER FAMOSO
 
 

É indecoroso ser famoso

Porque não é isso que eleva.

E não vale a pena montar arquivos

Nem perder tempo com manuscritos  antigos.
 
 

O caminho da criação é a entrega total,

E não fazer barulho ou ter sucesso.

Isso, infelizmente, nada significa

E é como uma alegoria a viajar de boca em boca.
 
 

É preciso, porém, viver sem pretensões,

Viver de tal modo que no fim das contas

Um amor ideal nos alcance

E ouçamos o apelo dos anos que virão.
 
 

O que é preciso rever

É o destino, não velhos papéis;

Nem parágrafos e capítulos de uma vida

Anotar ou emendar.
 
 

E mergulhar no anonimato,

Silenciar nele os nossos passos,

Como foge a paisagem na neblina

Em plena escuridão.
 
 

Outros, nesse rastro vivo,

Seguirão o teu caminho passo a passo,

Mas tu mesmo não deves distinguir

Derrota de vitória.
 
 

E não deves nem por um instante

Recuar ou trair o que tu és,

Mas estar vivo, só vivo,

E só vivo — até o fim.
 

Boris Pasternak

Poet's House

                                                 "Poet's House" (1965),
                                                  foto de Jerry Uelsman,
                                                  coleção MoMA, NY


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