ALEKSANDR SOKÚROV
Moloch (1999)
| O
Som e o Führer
Trilha
sonora opressiva, plástica perturbadoramente sedutora, personagens
patéticos: Isabelle Potel Um filme poético sobre um dia nas vidas de Adolf Hitler e Eva Braun, no castelo alpino Berchtesgaden, na primavera de 1942: esse é o novo objeto enigmático (hermético, dirão seus detratores) do russo Aleksandr Sokúrov. Encadeadas, imagens fascinantes, a ponto de não podermos nos desligar delas, desencadeiam um problema, uma desestabilização da percepção. Do que tratam? Sobre o caminho de ronda de uma fortaleza emprestada de Macbeth, a clara silhueta de uma mulher nua em pelo aparece, dançante, em piruetas. Ele se estira à beira do vazio e dirige uma alegre saudação a um sentinela invisível. Esse primeiro quadro, de uma angustiante sedução, fixa instantaneamente, sem ambiguidade, no tempo de um relâmpago, sua filiação à estética publicitária nazista. Eva Braun (a russa Elena Rufanova) espera seu querido, o Führer em pessoa, assassino em grande escala, fato que ela não ignora e que ama. Para matar o tempo saudavelmente, música militar e ginga de perna irreprocháveis. O senhor chega, silhueta estilizada com ares arqueados de Mister M, seguido de um punhado de cortesãos viperinos (entre os quais Goebbels), encantados com a perspectiva de um week end de descanso. Tem início, então, um huis clos macabro. Com "Moloch", esse nome de apelo mitológico universal, o autor de "Mãe e Filho" persegue a elegíaca e pictórica reflexão sobre a morte que assombra todos os seus filmes (o cinema, território de processar a morte). No fundo, essa evocação do nazismo poderia valer muito bem para Stalin ou para todo regime que, sob o manto de uma concepção paternalista do poder, devora seus filhos e também os dos outros. Porém, esteticamente, o cineasta incrustra sua impressionante visão com tenebrosas inspirações de Caspar David Friedrich, com os eflúvios desse romantismo alemão que ele tanto ama e para o qual compõe aqui ode devotada. Nas mãos dos políticos e dos mercadores, e com a contribuição da industrialização do espetáculo, a cultura torna-se propaganda, degradação. Pintor falhado, Hitler vingou-se. De uma só borrada, pereceram milhões de indivíduos. É isso o que lhe diz Eva Braun, encarnação da alma alemã, amorosa lúcida e portanto imperdoável, groupie até a loucura. Evaporação gelada Hitler, a cabeça pensante-delirante da maquinaria nazista, não é mais que pobre tipo cangalho e flatulento, corroído por suas pulsões mórbidas e por seu fastio corporal. Títere sinistro mergulhado na embriaguez do poder pelo temor da morte. Esse pavor monumental que Sokúrov designa gravemente como causa e fermento do fascismo, a besta imunda que clama sempre por mais. Hitler e seus amigos passeiam (inverossímil recanto campestre de conteúdos assustadores), eles comem, saltitam, aforismam, disputam, odeiam a si próprios, se desprezam entre eles. Monstros não, mas seres humanos petrificados de medo e vaidade. Angústia, pesadelo, inferno nauseabundo, visão plástica que é ao mesmo tempo inabarcável e plenificante: flous, filtros, anamorfoses, achatamento do espaço vertiginoso em sombras mortíferas, uma gélida evaporação de todo traço de vida. Sokúrov pinta, literalmente,
um cadáver. Uma obra-prima hipnótica e ao mesmo tempo inobservável,
pois um gás asfixiante emana quando nos aproximamos dela. Voltado
para a pintura do século XIX, esse reconhecido reacionário
inventa imagens que rompem todas as amarras com a realidade ótica,
imagens contudo extremamente físicas, que como em David Lynch dirigem-se
diretamente aos sentidos. Um sopro imperceptível atravessa o filme
para acariciar nossa carne aterrorizada, para tranquilizá-la. PORTRAIT LIBÉRATION "A cor, efeito psicológico" "Talvez possamos penetrar a essência da feiúra do que fazem essas pessoas", diz Alexandre Sokúrov a propósito de Hitler e de sua corte. Em "Moloch", que traz todos os tons do lodo, as cores se fundem a ponto de se dissolver, dando a sensação de que o mundo apodrece. Explicações. "Utilizamos menos filtros que para os outros filmes. Procuramos uma unidade de colorido pela qual uma cor se liga e se funde a uma outra. Nós utilizamos lentes com taxas de refração diferentes para cores diferentes, lentes que, por exemplo, deixam passar 50% da luz e refletem um pouco mais em vermelho ou em verde... Usamos vários difusores de luz frente aos objetos, com graus muito diversos de clareamento. Frequentemente nos servimos de luzes dirigidas diretamente à câmera. "Nosso domínio da cor. Essa é a nossa arte. Trata-se de um trabalho de pesquisa permanente, e agora já possuímos grande quantidade de recursos, que vão se tornando familiares. Uma empresa de São Petersburgo fabrica a contento para nós objetivas, filtros, refletores... Para esse filme, começamos a trabalhar na construção de uma enorme lente de vidro que, na extensão de uma mesma superfície, possui características diversas de reflexão, de cor, de luz. Essas ferramentas nos ajudam a investigar um fator que ocupa muito raramente os cineastas, em minha opinião: uma composição harmoniosa em sua globalidade: linhas, cor, luz, distribuição de sombras. Sou um aluno da tradição clássica em pintura, que demanda a criação de uma atmosfera por meio do não-dito, do mistério... Por exemplo, a cena em que Eva Braun parece se confundir com seu sofá, é um trabalho de distribuição de sombras; ali pretendi que não houvesse mais fronteira entre seu corpo e os objetos que a rodeavam, como se, nesse canto sombrio, ela estivesse em suspenso, à espera de alguma coisa. O efeito psicológico no cinema faz parte da paleta de cores, poderíamos batizá-lo 'cor' ". Eu acho que somente o cinema pode se vangloriar de possuir tal coisa a oferecer. !Também conduzi trabalho importante em torno do som. Hoje em dia,
os cineastas subestimam as paisagens sonoras. Essa é uma arte negligenciada,
mas que assume por vezes mais importância que o visual. A tarefa
dada ao engenheiro de som é a de delimitar o campo existente em
torno do pequeno espaço onde se desenrola a ação.
O som vem do exterior, o mundo interior não interessa à
orelha. O som de "Moloch" deveria mostrar o poder do mundo exterior. Essas
pessoas crêem que são senhoras do mundo, contudo o mundo
é muito mais potente que elas. A trilha sonora exprime a idéia
da mortalidade, o som nasce e morre, é inevitável que seja
assim". |