Aleksandr Sokurov
Moloch, 1999
prêmio de melhor roteiro no 52. Festival de Cinema de Cannes
FOLHA DE SÃO PAULO, 15 mai 1999
"Moloch" retrata o Hitler doméstico
ALVARO MACHADO
especial para a Folha
O tempo trabalha em favor de Alexandre Sokúrov,
48, o olho que radiografa a alma russa na passagem do milênio e que
aglutina a um só tempo os talentos de Sergei Eisenstein (1898-1948),
Sergei Paradjanov (1924-90), Andrei Tarkovski (1932-86) e Elem Klimov,
grandes do cinema da ex-União Soviética. (Moloch recebeu do júri do 52.o Festival de Cannes o prêmio de "melhor roteiro", para Yuri Arabov e Marina Koreneva) |
especial para a Folha
Numa fortaleza pendurada nas nuvens, uma mulher sozinha dança
nua em terraços majestosos. Sabe que é vigiada à distância
e
saúda os olhos que a espionam. Eva Braun espera o regresso do
amado "Adi". A monotonia do local é interrompida pelo Fuhrer e
sua comitiva: seu braço direito, Martin Bormann, e o especialista
em propaganda, Joseph Goebbels, com suas mulheres a tiracolo.
Tudo parece em seu devido lugar nas conversas e passeios pelas
paisagens espetaculares dos Alpes bávaros, mesmo sendo a
primavera de 1942. Porém, a perturbação de uma mulher
em
disputa com um homem complexo, incapaz de um relacionamento
íntimo, tornou Eva tão vulcânica quanto seu amante.
Sua voz é a
única que ousa contrariar a do Führer.
Eva Braun - Além de mim, quem pode contestar o que dizes?
Hitler - Vai. Continua. Seja insolente mais uma vez. Eu sei que
mereço o que há de pior.
Eva - Tu não sabes ficar sozinho. Quando não há auditório
à tua
frente, não és mais que um cadáver.
Hitler - Eu sei, sei tudo. Se venço, todos me dedicam adoração.
Porém, se perder, servirei de capacho para qualquer
pé-de-chinelo.
Eva - Sabes o que disse meu papá em 1929, quando nos
conhecemos no fotógrafo?... "Esse jovem é um menos que
nada"... Foi o que ele disse. Ele se enganou cruelmente. Tu lhe
quebraste a cara, assim como quebraste a cara de milhões de
pessoas... E ainda que fosses um menos que nada? Eu te amo
com todas as tuas fraquezas, toda a tua nulidade... Sê um menos
que nada, se quiseres.
(Extraído do roteiro de Yuri Arabov e Marina Koreneva)
Estilo Sokúrov é puramente visual
especial para a Folha
Merecedor de uma retrospectiva no Festival de Berlim de 1989,
após um longo período censurado pelas autoridades russas,
Alexandre Sokúrov tornou-se mais conhecido na Europa apenas
no ano passado, após as exibições, em Paris, de "Mãe
e Filho"
(1997) e "Páginas Ocultas" (1993).
Desde então, a crítica francesa tem tratado o diretor como
um
revolucionário da linguagem fílmica. No Brasil, Laymert Garcia
dos Santos, professor do Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e
Boris Schnaiderman, professor de russo e teoria literária da
Universidade de São Paulo, falaram à Folha sobre o autor
de
"Moloch". (AM)
Laymert Garcia dos Santos - "Para mim, a
revelação do cineasta foi com seu documentário "Elegia
Soviética"
(1989), absolutamente fantástico porque apresentava os
governantes russos num discurso político hiperarticulado, porém
com pouquíssimas palavras. Era muito mais que um documentário.
Uma justaposição de imagens, de Lenin até Ieltsin,
criava uma
espécie de tempo que permitia perceber a continuidade histórica
apenas através dos rostos. Ele filmou Ieltsin na cozinha de sua
casa, olhando para uma garrafa e um copo de vodca, sem dizer
nada. Depois, vendo "Mãe e Filhos", constatei que é a densidade
da imagem, a informação puramente visual que faz o seu estilo.
Não é um continuador de Tarkovski, mas tem uma força
tão
grande quanto e, ao mesmo tempo, incrível capacidade de
apreensão da sociedade".
Boris Schnaiderman - "Em meu livro "Os Escombros e o Mito - A
Cultura e o Fim da União Soviética" (Cia. das Letras, 1997),
citei, a
respeito de Sokúrov, Mikhail Iampolski, do "Cahiers de
Cinéma". O crítico notou que, em sua versão de "Madame
Bovary" (1989), o diretor utilizava jogos de linguagem entre os
idiomas russo e francês para pôr em primeiro plano a
comunicação intuitiva, corporal, carnal. Partindo do texto
de
Flaubert, Sokúrov esforçava-se visivelmente para derrubar os
seus valores: o racional era dinamitado pelo sensual, o verbal pelo
visual".
Hervé Gauville, crítico do "Libération" - "Páginas
Escondidas" é o
contrário de uma adaptação literária. Nele,
a pintura não faz papel
de decoração, a música não ilustra a ação,
e o romance ("Crime e
Castigo') não escreve o roteiro. Por outro lado, Sokúrov não
abre mão de nada. Inútil fazer crer que seu cinema se dirige
aos
homens de boa vontade e aos inocentes de mãos puras. Para
entrar em sua casa, deve-se ter visto todos os quadros, escutado
todas as músicas, lido todos os livros e, além disso, extenuado
a
carne para lá do último grau de fadiga. (...). Não
se deve assisti-lo
senão quando em situação extrema, no momento em que
se está
disposto a tudo e quando se aceita não sair ileso".
Volta à Revista Eletrônica Opera Prima / Volta ao catálogo de livros Opera Prima