Tela de Mestre

Hervé Gauville

Libération, 25/11/1998

DESCONFIAR de Alexandre Sokúrov. Aos 47 anos, o cineasta russo cometeu uma vintena de filmes, cuja recepção permanece em âmbito obstinadamente confidencial. De saída, esquecer Andrei Tarkovski.
O próprio autor declarou: "Jamais frequentei seus cursos, nunca o venerei e jamais continuarei o seu trabalho". Entretanto, dois de seus filmes, "A Voz Solitária do Homem" e "Elegia Moscovita" (terminados em 1987) são dedicados ao diretor desaparecido. Vai se saber por quê.

Desconfiar sobretudo do que se fala a respeito de Sokúrov. Abandonar Tarkovski, mas abandonar também a referência obrigatória à pintura. Desde o primeiro plano de "Páginas Ocultas", a imagem de uma fachada imóvel evoca irresistivelmente uma tela. Tudo é tela. O contraste entre as nuances do negro ao branco com variações sobre tonalidades de cinza, a disposição sábia das janelas e de uma escada, a ausência do anedótico, o equilíbrio entre fundo (manchas nos muros) e primeiro plano (janelas, névoa), e até uma composição equestre entre abstrações quase monocromáticas e vapores a la Turner.

Abster-se, todavia, de qualquer citação. Seria realmente fácil evocar, a propósito do personagem principal (Alexandre Cherednik como Raskolnikov, o herói de "Crime e Castigo", de Dostoiévski), as figuras crísticas de Cimabue ou de Mantegna; ou convocar Rembrandt e a pintura holandesa para as imagens dos indivíduos miseráveis e grandiosos que assombram os bas-fonds. A desconfiança pede, ao contrário, que se varram essas muletas culturais.

A única presença pictórica identificável consiste num plano fixo sobre uma obra de Hubert Robert. A questão é: o cinema tem qualquer coisa que ver com a pintura (com a literatura, com a música?). Rohmer fornece uma resposta erudita em "A Marquise d'O". Godard ministra um curso de história da arte em "Passion". Pialat filma um personagem de pintura em "Van Gogh". Todas tentativas, em suma, estimáveis quanto ao desejo de alargar o espectro do cinema. Sokúrov não procede dessa maneira. Ele se coloca no interior da pintura (e não desta ou doutra tela) e assesta uma câmara provida de objetivo pictórico. E faz a mesma coisa com o som. "Páginas Ocultas" é, sem dúvida, o único filme que se pode ver também de olhos fechados.

Ruídos aprisionados, borborigmas, murmúrios, sopros, ventos, rachaduras e vozes de ópera compõe uma partitura de concerto independente de cenário.


Pode-se falar em roteiro? Uma advertência preliminar avisa que o diretor "tentou transcrever em imagens citações da prosa russa do século 19, e sobretudo do romance 'Crime e Castigo', de Dostoiévski". O que não dispensará ninguém de ler, ou reler, Dostoiévski. "Páginas Ocultas" é o contrário de uma adaptação literária. A pintura não faz o papel de décor, a música não ilustra a ação e o romance não escreve o roteiro. Por outro lado, Sokúrov não abre mão de nada. Inútil fazer crer que seu cinema se dirige aos homens de boa vontade e aos inocentes de mãos puras. Para entrar em sua casa, deve-se ter visto todos os quadros, escutado todas as músicas, lido todos os livros e, além disso, extenuado a carne para lá do último grau de fadiga. É pouco dizer que ele vira as costas ao divertimento. "Páginas Ocultas" não é um presente, e se vangloria disso. Somente aqueles que não têm mais nada a perder (e, ainda menos, a ganhar) terão alguma chance de não desperdiçar seus 77 minutos de projeção. Será criminoso (com culpa) fazer uso da pequena estrofe da crítica cinematográfica: "a ver, absolutamente", ou outra fórmula igualmente estúpida. Ao contrário, não se deve assistir senão quando em situação extrema, de sobrevivência, no momento em que se está disposto a tudo e, especialmente, quando se aceita não sair ileso.

Sob essas condições, o que se verá? Corpos nebulosos e ações insensatas.

Como a passarela do alto da qual mulheres e homens se jogam no vazio. Os corpos oscilam, e depois desaparecem fora de campo. Suicídios, jogo? Se esborracham sobre o pavimento ou saltam sobre o trampolim de suas ilusões? Nada se sabe, nos enganamos, nos limitamos simplesmente a escorregar com eles, pelo prazer da queda. Gilles de  Rais confessou a um amigo caído num precipício e salvo por milagre que ele não lhe havia dado socorro porque não sabia que era tão belo ver um homem cair (1).

Dostoiévski disse-o à sua maneira, em "Os Irmãos Karamázov": "A Humanidade pode viver sem ciência e sem pão, somente a beleza lhe é indispensável. Todo o segredo está nela, toda a História". O segredo de "Páginas Ocultas" também está aí. Como está no rosto de Sônia, prostituída, idiota (no sentido dostoievskiano do termo) e santa. Como está na imensa estátua leonina, em cujo útero o herói vai se enrolar, escondido nas origens de pedra de sua derrelição. Como está nessa cidade sem idade, invadida pelas águas, que se pode tomar por São Petersburgo e que se situa, na realidade, na Alemanha, nas usinas Krupp desativadas.
O folclore é impotente para falar o russo de Sokúrov. Em seu filme, ele não fala. Ou fala muito pouco.

Alguns argumentos, à maneira de pontuação. Os verdadeiros diálogos são trocados entre golpes corporais. Luta-se e contrange-se em silêncio.

E quando Raskolnikov redige uma declaração administrativa, o diálogo se engaja a propósito do som, e não do sentido: o rangido da pena irrita o escrivão. A rua sem alegria não transpira o expressionismo deletério de um Pabst, ela se contenta em deslizar ao longo dos canais, como deslizam as sombras dos vivos e os fantasmas dos assassinados. O filme é em cores, porém suas cores são aquelas do branco e do negro com tudo o que existe entre uma e outra. Entre cegueira e pulsão scópica. Entre Sokúrov e vocês. Entre crime e castigo.


(1) Mencionado por Georges Bataille.
 

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