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artigo de Gérard Lefort Sokúrov em contraclichês
Aleksandr Sokúrov, agora canonizado pelo Festival de Outono (Paris, 1998), mas na verdade descoberto no final dos anos 80 pelo Festival de Berlim e depois, em 1993, em retrospectiva do Festival de La Rochelle, vê acumularem-se sobre sobre si, como propagandas sobre o macacão de um campeão, um certo número de mal-entendidos e, sobretudo, porque se trata de cinema, de mal-vistos. Fazer uma lista bastante franca dessas etiquetas colantes não teria nenhum interesse, senão sob a ótica de que o clichê, negativo, permite revelar uma imagem positiva em cores. CLICHÊS DA CRÍTICA - UMA LISTA O entendiado. Porque os filmes de Sokúrov tomam tempo, mesmo quando são curtos ou breves. Do longor ao langor, Sokúrov trabalha acima de tudo uma matéria que não tem muito que ver com o tempo, e menos ainda com o tempo, ou timing: a duração (NT: durée, na acepção bergsoniana). Quer dizer, o tempo antes do cronômetro, indexado pelas paisagens, pelo espaço, pelos corpos, pelas histórias e geografias. É o que faz com que os filmes de Sokúrov durem e não passem. Que essa durée possa engendrar tédio e, por que não, sonolência, isso coloca em questão sobretudo nossa impotência infantil ou doentia de estar, estar num lugar, em êxtase. De fato, ao sair de um filme de Sokúrov, e particularmente de Páginas Ocultas, constatase fisicamente que há barulho demais na rua, ou luz demais no céu. Porém, essa desqualificação pelo tédio questiona também nossa incapacidade, sobretudo estética, de se entendiar com propriedade. Como escreveu Jean Lorrain em Sonyeuse, a propósito de dois personagens assistindo a uma peça de teatro: "Oferecemos a seguir o espetáculo encantador de dois que se aporrinham até a morte". ( «Nous offrions alors le spectacle ravissant de deux qui s'emmerdent à mort.» ) O Russo. Porque consta que Aleksandr Nikolaevitch
Sokúrov nasceu, com certeza, soviético. "Russo", e portanto, "alma",
tão seguramente quanto a aurora tem dedos cor-de-rosa e a
salsicha é de Frankfurte. O que permite realimentar os conceitos
acima (tristeza, tédio, langor etc.), aumentados de certos truísmos
que pertencem à atualidade da ex-URSS: Sokúrov é testemunha
privilegiada do Império desmoronado.
O artista. Porque não se compreende tudo e porque a etiqueta genérica de artista permite desembaraçar-se da incômoda falta de sentido de seus filmes menos anglo-saxônicos. Sobre esse aspecto, uma observação e uma citação. Observação: um dos filmes mais "incompreensíveis" de Sokúrov intitula-se O dia do eclipse. Ora, um eclipse, por definição, não faz mais do que passar, deixando-nos enriquecidos de um bocado de coisas que nos permitem pensar um bocado de coisas. Quanto ao artista, Sokúrov, nos dizia (Libération de 4 de fevereiro de 98), sem qualquer traço de dandismo: "O cinema é uma espécie de depósito no qual misturamos impurezas tecnológicas. Certamente não uma arte." O marginal. Porque um dos mais belos filmes de Sokúrov chama-se A Voz solitária do homem. Porém a margem implica um centro, e qual seria esse centro? O desaparecimento quase total do cinema russo? A dominância das maneiras "modernas" de fazer cinema? Ora, Sokúrov, especialmente em Mãe e filho, utilizou na trilha sonora a tecnologia Dolby Stereo, porém para dar voz ao que ela não tem o costume de nos fazer escutar: o fraco e o surdo, mais que o forte e o barulhento. Portanto, pode-se dizer que Sokúrov é leibniziano: ele não tem centro (podre) nem periferia (paradisíaca), ele tem apenas plenitude. Mais que um marginal, Sokúrov é um minoritário que conspira continuar sendo-o. O conservador. Porque, no momento resumidor de citar referências, Sokúrov fala de Dostoiévski em literatura; de Caspar Friedrich, Turner e El Greco em pintura; de Mahler ou Mozart em música. Donde deve-se concluir que Sokúrov é passadista, conservador, reacionário? Por um lado, essas referências não são, quando muito, as piores. Por outro lado, Sokúrov não faz uso nem erudito, nem professoral, nem pitoresco dessas referências. Mais que isso, citadas por seus filmes, essas referências cessam de ser referências. "Tudo deve se encontrar no interior da massa folhada do filme", disse ele a propósito das imagens e do som em Mãe e filho. O romântico. Porque esse falso cumprimento
nebuloso permite resumir todos os outros. Romântico, isto é,
triste, entendiado, artista etc. Essas cartas mal distribuídas ultrapassam em
muito os limites de Sokúrov, que é um romântico, de
fato, sob a condição de se acabar com a insistente ortodoxia
que pretende que o romantismo lembre a astenia, a consumição,
o desvanecimento, a fraqueza de si e as camisas com gola jabot.
Ora, todos os filmes de Aleksandr Sokúrov o provam, não
existe nada mais muscular, nervoso, sanguíneo, carnal e vivo que
o romantismo. GÉRARD LEFORT
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A imagem acima pertence ao filme Páginas Ocultas (1993), inspirado em Crime e Castigo |